David J Phillips

Autodenominação: Kagwahiva (Kagwahibm, Kagwahiv, Kawahip, Kavahiva, Kawaib, Kagwahiph). Para o Tenharim o nome significa 'nós' ou 'a gente' (Peggion 1999). Os Tenharim, Amundava, Kayabi, Júma e Karipuna chamam se Kagwahiva (SIL).

Outros nomes: Kagwahiv, Kawaib, Tenharem, Tenharin

População: 699 (DAI/AMTB 2010). 409 em 1999, 699 em 2006 (Peggion 1999). 703 (FUNASA 2010). SIL dá o total 790.

Locação: No curso médio do rio Madeira:

  • Terra Indígena Sepoti (AM) de 251.349 ha homologada e registrada no CRI, com 66 Tenharim.
  • T I Tenharim Marmelos (AM) de 497.521 ha homologada e reg. CRI com 535 Tenharim.
  • T I Tenharim do Igarapé Preto (AM) de 87.413 ha. homologada e registrada no CRI e SPU, com 100 Tenharim.
  • T I Tenharim Rio Marmelos (Gleba B) (AM) de 473.961ha homologada com 393 indígenas. Um total 1100 ou 707 + 393 (Peggion 1999).

Língua: Tenharim da família linguística Tupi-Guarani, subgrupo VI com:

  • Amundava, Apiaká, Júma, Karipúna, Karipuna, Morerebi, Paranawát, Tukumanféd, Uru-Eu-Wau-Wau, Uru-Pa-In e Wiraféd. Kayabi é também semelhante (SIL).
  • Dialetos: Tenharim (Tenharem, Tenharin), Parintintín, Kagwahiv (Kawaib), Karipuna Jaci Paraná, Mialát, Diahói (Jahui, Giahoi). Também usam português. Alfabetismo em Tenharim 10-30%, em português 15-25%. A língua desapareceu no Igarapé Preto e rio Sepoti, mas é usada ainda no rio Marmelos. Uma gramática foi produzida e a tradução do Novo Testamento foi completa em 1996 (SIL). Global Recordings produziu um vídeo de quarenta história bíblicas. Uma tradução de Gênesis abreviado, Jypya, é disponível pela Imprensa Bíblica Brasileira.

História:
Os Kagwahiva ou Tenharim eram primeiramente conhecidos nos meados do século XVIII vivendo no rio Juruena, grande afluente na margem esquerda do rio Tapajós. Quando a região foi invadida pelos garimpeiros vindo de Cuiabá a procura do ouro e depois uma guerra com os Mundurku os Kagwahiva se deslocaram para os afluentes do rio Madeira, uma distancia de 500 km linha reta. Nas prolongas migrações eles passaram pelas serras e pelos cerrados e são descritas nas narrativas dos Tenharim do Igarapé Preto. Ficaram espalhados em pequenos grupos entre o rio Tapajós e o rio Madeira e 'faccionalismo' criava uma vida de alianças e conflitos e somente reuniram para confrontar os brancos (Peggion 1999).

Houve guerra por setenta anos até a 'pacificação' em 1922. Em 1852 os Kagwahiva atacaram os neobrasileiros que trabalhavam na extração de copaíba e depois 1858 mataram sete serigueiros no rio Merari e outros depois no rio Madeira. O governo tentou estabelecer missões nos rios Madeira e Machado, porém os Kagwahiva atacaram a missão no Machado em 1871. O engenheiro inglês Matthews viu a única solução ser a bala. Três regatões foram mortos no Madeira em 1895 (Hemming 1995.286).

Durante o século XIX eram conhecidos pelo nome Parintintin. Só depois de 1922 quando Nimuendajú realizou a 'pacificação' que foi descoberto que um só grupo eram os Parintintim e os outros eram os Kagwahiva. Mais tarde no século XIX um chefe, Byahu, tentou ser líder dos diversos grupos dos Kagwahiv, mas foi morto pelos Pirahã. Sua morte era a ocasião para o povo dividir de novo. Depois a 'pacificação' o SPI estabeleceu Postos em Canavial no rio Ipixuna e na foz do rio Maici Mirim perto de Calamas. Os Kagwahiva eram convertidos ao Catolicismo pelos salesianos e abandonaram seus ritos, mas manteram sua organização social. Uma equipe do SIL estava em Canavial de 1960 a 1976, analisando a língua e dando assistência médica (Kracke 1996).

Estilo de Vida:
Os Tenharim do rio Marmelos vivem na beiras deste rio, afluente do rio Madeira. Na década 50 um comerciante persuadiu os indígenas se transferir para a beira da rodovia BR 230. Hoje a aldeia é dividida pela estrada que é o meio de vender suas castanhas do Pará, farinha de mandioca e o óleo de copaíba e a compra de produtos industriais. Muitos morreram com a transferência devido a gripe e outras infecções dos regionais (Peggion 1999). As famílias dispersam para seu sítios e roças durante a estação seca em junho para derrubar a mata e fazer o plantio. Algumas famílias permanecem pertos das roças fora da aldeia a maior parte do tempo.

Os Tenharim do Igarapé Preto viveram dispersos na região com seringueiros nas décadas 40 e 50. Nos anos 60 seu território foi invadido por garimpeiros em busca de cassiterita, facilitado pela abertura das rodovias BR 364 e BR 230. Com a redução da jazidas de cassiterita as companhias de mineração partiram da região. Hoje se localizam numa aldeia à margem esquerda do Igarapé Preto, entre o mato e o cerrado e vivem pela caça e a pesca. Conseguem comerciar castanha do Pará e a farinha de mandioca (Peggion 1999).

Os Tenharim do rio Sepoti também fazem comércio com os regatões no rio Marmelos.

Artesanato: Alguns Tenharim fabricam arcos e flechas, colares, pulseiras e anéis para vender em Porto Velho. A farinha de mandioca é o produto principal que é trocada por produtos industriais, encomendados dos comerciantes da cidade, porém a diferenças nos preços resulta em exploração dos indígenas. Óleo de copaíba e castanha do Pará são transportados para a cidade no caminhão do povo ou da prefeitura.

Sociedade: Os Tenharim são divididos em duas metades associadas com dois aves e são exogamias. A da Mutum Nanguera (o significado da última palavra é desconhecido), e a da Kwandu (gavião-real) ou Tarave (maracanã). Há um terceiro grupo Gwyrai'gwara (associado com o japú), que se casam com as duas metades. A pessoa pertence à metade do seu pai.

O casamento é decidido logo depois do nascimento da criança e ela recebe um nome pelo irmão da mãe, e assim é determinado seu casamento com a criança do irmão. O pai dá um nome associado com a metade dele, que será a metade da criança. A iniciação da moça é organizada pelo irmão do pai da menina é no tempo da primeira menstrual. Ela é separada na casa e observa certos tabus de comida e depois recebe um banho cerimonial no rio pelo pai (Kracke 1996).

No dia do casamento dois irmãos são 'padrinhos da noiva' e têm o direito de nomear e determinar o casamento dos filhos da noiva. O casal vive com os pais da esposa e o marido fez um período de cinco anos de serviço para o sogro. São livres de mudar da casa depois deste tempo, mas a maioria continuam a viver uxorilocal (Kracke 1996). Outros dizem que a residencia é patrilocal (Peggion 1999).

Os Tenharim do rio Marmelos têm uma aliança com os do Igarapé Preto desde os tempos antes do contato com a sociedade nacional. Os Tenharim do rio Sepoti são descendentes de duas mulheres que nos 40 do século XX se casaram com regionais. Apesar da sociedade Tenharim seja patrilinear a comunidade do Sepoti se consideram ser ainda Tenharim. Todos os três grupos são bilíngues (Peggion 1999).

Religião:
Todos os grupos Kagwahiva narram das suas proezas na forma de cantos. Os cantos terminam com uma frase que distingue o grupo: Os do Igarapé Preto fala da serrania onde o grupo vive, os dos outros grupos no rio Marmelos referem-se ao rio.

As curas são feitas pelas ervas ou pelos pajés na cerimonia chamada tokaia. O ipaji (pajé) entra em transe, sem alucinógenos, atras um pari (tokaia) no pátio da aldeia e viaja pelas camadas do universo, pedindo a ajuda de espíritos para encontrar com Pindovaúmi'ga, chefe do Povo do Céu. Um pajé fora da tokaia fala com cada espírito e o pajé dentro responde não voz cantador do espírito.

Os sonhos são associados com os espíritos e o pajé ou outros podem encontrar com os espíritos. Antigamente os futuros pajés são preditos por sonhos antes de nascer, e o novato depois serve uma aprendizagem com um pajé até receber seu espírito auxiliar. Mas o processo falhou há anos quando o último pajé morreu sem passar seu conhecimento ao rapaz do sonho (Kracke 1996).

Os Tenharim observam diversos tabus de comida e do sexo. Há tabus de certas comidas para os pais desde do nascimento dos primeiro filho até a velhice. Há outros tabus durante a gravidez e as meses depois do parto. Comer a carne da cutia faz a pessoa preguiçosa e não deve ser comida pelos guerreiros. Mexer com a mandioca quando a pessoa está doente é perigoso. O sexo está proibido durante a pesca com timbó, porque o veneno vai perder seu efeito com o peixe. O sexo entre primos paralelos pode causar a morte dos pais ou os filhos. Há tabus de comida para o caçador ser capaz de matar certos especies (Kracke 1996).

Antigamente o objetivo na guerra era trazer a cabeça do inimigo de volta para a aldeia e exibi-la em uma festa chamada akagwera toryva (festa do troféu da cabeça) que conferiu o status de honor ao guerreiro e ele recebeu um novo nome.

Cosmologia:

O poderoso chefe da antiguidade, Pindovaúmi, chateado pelas brigas entre seus filhos, levantou sua casa e os melhores recursos naturais para o céu.

Mbahira (Mira nas outras mitologia Tupi), herói mítico e enganador,mora nas serras e muitos outros aspectos da natureza são associado com ele. Ele possui uma série de animais de estimação. Ele foi criador ou doador de muitos artigos da cultura Tenharim. Gwaivi é uma velha ancestral que foi queimada à morte pelos seus filhos e se transformou em muitas colheitas cultivadas pelos Tenharim (Kracke 1996).

Comentário: LaVera Betts era uma missionária norte americana do SIL por 45 anos no Brasil, a maior parte do tempo ela morava e trabalhava entre os Tenharim, com uma colegas canadense Helen Pease, e morreu em São Paulo com 79 anos. Produziu o dicionário português – parintintín. David Bendor Samuels trabalhou na língua.

Bibliografia:

  • DAI/AMTB 2010, 'Relatório 2010 - Etnias Indígenas do Brasil', Organizador: Ronaldo Lidório, Instituto Antropos instituto.antropos.com.br
  • HEMMING, John, 1995, Amazon Frontier; The Defeat of the Brazilian Indians, London: Pan Macmillan.
  • HEMMING, John, 2003, Die if You Must: Brazilian Indians in the Twentieth Century, London: Pan Macmillan.
  • KRACKE, Waud, 1996, "Kagwahiv", Encyclopedia of World Cultures. Acessado abril 22, 2012 da Encyclopedia.com: www.encyclopedia.com/doc/1G2-3458001203.htm
  • PEGGION, Edmundo Antonio, 1999, Povos Indígenas do Brasil, Instituto Socioambiental, São Paulo, pib.socioambiental.org/pt/povo/tenharim
  • SIL 2009, Lewis, M Paul (ed), Ethnologue: Languages of the World, 16th edition. Dallas, Texas: SIL International. Online version: www.ethnologue.com..